Para uma vida vicentina, nada melhor que uma noite severina.
Noite severina
Pedro Luís e Lula Queiroga
Corre calma, severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Corre alta, severina noite
No ronco da cidade, uma janela assim acesa
Eu respiro o teu desejo
Chama no pavio da lamparina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Ali, tão sempre perto e não me vendo
Ali sinto tua alma a flutuar do corpo
Teus olhos se movendo, sem se abrir
Ali, tão certo e justo e só te sendo
Absinto-me de ti, mas sempre vivo
Meus olhos te movendo sem te abrir
Corre solta, suassuna noite
Tocaia de animal que acompanha a sua presa
Escravo da sua beleza
Daqui a pouco o dia vai querer raiar
Daqui a pouco o dia vai querer raiar...
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Prisma
Ela se tornou mulher numa noite mais ou menos como essa. Chegou em casa tirando o tênis e a roupa. Não era para ninguém, mas para ela mesma, cansada de um dia que parecia ter tido 40 horas. Na sala, ela o encontrou. Com a cara amarrada, como o de costume. Não que ele fosse um sujeito mal-humorado, apenas tinha dificuldade em lidar com o diferente. E ela era diferente.
Sem rodeios, ele impôs suas condições. Se ela era assim, as coisas agora seriam assado. Afinal de contas, estou cansado de ceder. Sem se alterar, ela respondeu que não aceitava. De jeito nenhum, não vou pagar uma conta que não é minha. Manteve o rosto erguido, sem deixar escorrer uma lágrima. Usou argumentos inteligentes, sem espernear. Uma adulta, enfim.
Mas ele não estava preparado para tanta decisão. Claro que não. Essas coisas levam tempo. Além disso, a maioria dos pais prefere não ver que os filhos cresceram.
Ela, que pena, não sou eu. Mas uma das pessoas mais admiráveis que eu já conheci.
Sem rodeios, ele impôs suas condições. Se ela era assim, as coisas agora seriam assado. Afinal de contas, estou cansado de ceder. Sem se alterar, ela respondeu que não aceitava. De jeito nenhum, não vou pagar uma conta que não é minha. Manteve o rosto erguido, sem deixar escorrer uma lágrima. Usou argumentos inteligentes, sem espernear. Uma adulta, enfim.
Mas ele não estava preparado para tanta decisão. Claro que não. Essas coisas levam tempo. Além disso, a maioria dos pais prefere não ver que os filhos cresceram.
Ela, que pena, não sou eu. Mas uma das pessoas mais admiráveis que eu já conheci.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Pequeno grande encontro
Tem encontros ao acaso que a gente teme, mas não muito. São mais difíceis do que a gente gostaria, mas não tanto quanto a gente imaginava. Mas o sem querer dura pouco, o tempo de uma caminhada até a saída, talvez.
- Então, professor, ficou bacana essa reforma aqui, né?
- É, ali é o laboratório e...
- Carol?
- Oi. Oi!
- O que você está fazendo aqui?
- Ah, vim conhecer o trabalho do professor.
- Então você conhece essa figura, Carolina?
- Ô.
- Então, professor, ficou bacana essa reforma aqui, né?
- É, ali é o laboratório e...
- Carol?
- Oi. Oi!
- O que você está fazendo aqui?
- Ah, vim conhecer o trabalho do professor.
- Então você conhece essa figura, Carolina?
- Ô.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Crônica dos beijos anunciados
Perdoe-me, Gabo, pelo plágio mal feito. Mas não consegui achar título mais apropriado para aquela hora em que você sabe que vai acontecer, torce para acontecer e, mesmo assim, bate aquele medinho de não ser nada disso. Coisa comum nas primeiras vezes, e nem precisa ser a primeirona mesmo. Pode ser a quarta, a quinta ou a décima. Não saber é sempre interessante.
- Aí os dois assaltantes entraram no bar, anunciaram o assalto, levaram os celulares. Eu e meu amigo...
Poxa, ele bem que podia me beijar.
- Acabou que eu levei uma coronhada, fiquei com essa cicatriz na boca, ta vendo?
Será que eu vou ter que beija-lo?
- Ahn? Cicatriz? Onde?
- Aqui, no lábio superior.
- Ah, ta bem pequena.
Como será que é beijar essa cicatriz?
- Ei, você está me ouvindo?
- To, claro.
- É que você pareceu distante.
- Imagina... só estava te olhando.
- Olhando?
- É, olhando.
- Vem cá...
...
- Pois é, eu não gosto de reggae.
- Sério? Que pena, eu adoro.
- Da próxima vez, eu trago um CD só pra não correr o risco.
- Ah, não fala assim.
- Tô brincando.
- Mas eu não ouço só reggae, sou bem eclético até. Você já ouviu aquele CD do Ney Matogrosso com o...
Olha, o papo ta ótimo. Mas eu vim aqui pra te beijar. A gente pode até conversar depois, ser amigos e quem sabe até evoluir para um rolinho. Mas agora não.
- ...aí eles fizeram umas versões exclusivas, bem legais. Olha essa aqui.
- Hum, legal mesmo. Depois eu quero gravar.
- Tem também essa outra, olha só esse arranjo...
- Lindo... Sabe o que que é? To curiosa.
- Curiosa como?
- Ah, curiosa.
- Vem cá...
Beijar na boca é bom. Mas, muitas vezes, a graça é o caminho e não a chegada. Meu próximo namorado vai ter que ser compreensivo com algumas coisas. Vez ou outra, a gente vai brincar de conquista. Só pra ver quem perde primeiro.
- Aí os dois assaltantes entraram no bar, anunciaram o assalto, levaram os celulares. Eu e meu amigo...
Poxa, ele bem que podia me beijar.
- Acabou que eu levei uma coronhada, fiquei com essa cicatriz na boca, ta vendo?
Será que eu vou ter que beija-lo?
- Ahn? Cicatriz? Onde?
- Aqui, no lábio superior.
- Ah, ta bem pequena.
Como será que é beijar essa cicatriz?
- Ei, você está me ouvindo?
- To, claro.
- É que você pareceu distante.
- Imagina... só estava te olhando.
- Olhando?
- É, olhando.
- Vem cá...
...
- Pois é, eu não gosto de reggae.
- Sério? Que pena, eu adoro.
- Da próxima vez, eu trago um CD só pra não correr o risco.
- Ah, não fala assim.
- Tô brincando.
- Mas eu não ouço só reggae, sou bem eclético até. Você já ouviu aquele CD do Ney Matogrosso com o...
Olha, o papo ta ótimo. Mas eu vim aqui pra te beijar. A gente pode até conversar depois, ser amigos e quem sabe até evoluir para um rolinho. Mas agora não.
- ...aí eles fizeram umas versões exclusivas, bem legais. Olha essa aqui.
- Hum, legal mesmo. Depois eu quero gravar.
- Tem também essa outra, olha só esse arranjo...
- Lindo... Sabe o que que é? To curiosa.
- Curiosa como?
- Ah, curiosa.
- Vem cá...
Beijar na boca é bom. Mas, muitas vezes, a graça é o caminho e não a chegada. Meu próximo namorado vai ter que ser compreensivo com algumas coisas. Vez ou outra, a gente vai brincar de conquista. Só pra ver quem perde primeiro.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Mansão Foster
Já falei aqui dos meus cinco amigos imaginários, certo? Eram cinco mesmo, com nomes esquisitos e personalidades bem distintas. Tinha uma dupla responsável, outra dupla que me parecia ser um jovem casal e um solitário, completamente da pá virada. Fiquei um tempo pós-infância achando que eu era louca, mas minha mãe me convenceu de que isso é perfeitamente normal (e não tentem fazer o contrário!).
Mas sempre fiquei intrigada para saber por que é que eu não imaginava pessoas normais. Crianças da minha idade ou mesmo adultos companheiros. Não. Meus amigos imaginários tinham formas e cores bem estranhas. A dupla mais séria era em tons de verde e azul, o casal tinha algo de vermelho - não me lembro tão bem, isso já faz algum tempo - e o serelepe era pequeno, boca sorridente.
Ontem descobri que eu não sou solitária nessa loucura infantil. Assiti com uma amiga a um desenho chamado Mansão Foster para Amigos Imaginários, no Cartoon Network. Adorei! Os desenhos são completamente psicodélicos, tem um que é só um rabisco falante, outro que parece um bexiga cor de rosa, sem falar nas inúmeras possibilidades para narizes, olhos e bocas dessas criaturas estranhas.
Achei o desenho o máximo, a ideia sensacional. Pode ser que os cartunistas tenham usado muitas drogas para chegar ao resultado final. Mas ficou ótimo, tenho certeza que milhares de jovens se identificaram com isso. E se tudo der errado, eu viro roteirista de desenho animado ou crio uma Mansão Carolina para Amigos Imaginários.
Mas sempre fiquei intrigada para saber por que é que eu não imaginava pessoas normais. Crianças da minha idade ou mesmo adultos companheiros. Não. Meus amigos imaginários tinham formas e cores bem estranhas. A dupla mais séria era em tons de verde e azul, o casal tinha algo de vermelho - não me lembro tão bem, isso já faz algum tempo - e o serelepe era pequeno, boca sorridente.
Ontem descobri que eu não sou solitária nessa loucura infantil. Assiti com uma amiga a um desenho chamado Mansão Foster para Amigos Imaginários, no Cartoon Network. Adorei! Os desenhos são completamente psicodélicos, tem um que é só um rabisco falante, outro que parece um bexiga cor de rosa, sem falar nas inúmeras possibilidades para narizes, olhos e bocas dessas criaturas estranhas.
Achei o desenho o máximo, a ideia sensacional. Pode ser que os cartunistas tenham usado muitas drogas para chegar ao resultado final. Mas ficou ótimo, tenho certeza que milhares de jovens se identificaram com isso. E se tudo der errado, eu viro roteirista de desenho animado ou crio uma Mansão Carolina para Amigos Imaginários.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Conexões
Sei que não é novidade, mas para mim soou totalmente surreal (olha ele aí de novo) a teoria dos seis graus de separação. Para quem nunca ouviu falar, trata-se de uma teoria que afirma que todas as pessoas do mundo estão conectadas entre si por até seis laços de amizade. Ou seja, você conhece alguém, que conhece alguém, que conhece alguém, que conhece alguém, que conhece alguém, que conhece alguém, que conhece o Barack Obama. Ou o Brad Pitt, o que por si só já renderia um convite para um churrasco na mansão Jolie/Pitt.
Mas acho que isso é pura especulação. Não consigo imaginar nenhuma ligação com um camponês que vive no interior da Índia. Penso que essa história só dá certo quando se trata de gente rica e/ou bem nascida como eu e você. Gente que tem acesso a um computador, internet e aos badalados sites de relacionamento.
Que seja. Em Brasília – lugar que concentra muitos ricos e/ou bem nascidos – essa conectividade deve se realizar em até dois laços. O pessoal costuma dizer que aqui só existem três pessoas: eu, você e alguém que a gente conhece. O que na prática significa: não faça nenhuma merda muito grande. Todos vão saber.
Mas acho que isso é pura especulação. Não consigo imaginar nenhuma ligação com um camponês que vive no interior da Índia. Penso que essa história só dá certo quando se trata de gente rica e/ou bem nascida como eu e você. Gente que tem acesso a um computador, internet e aos badalados sites de relacionamento.
Que seja. Em Brasília – lugar que concentra muitos ricos e/ou bem nascidos – essa conectividade deve se realizar em até dois laços. O pessoal costuma dizer que aqui só existem três pessoas: eu, você e alguém que a gente conhece. O que na prática significa: não faça nenhuma merda muito grande. Todos vão saber.
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